O objetivo deste blog é divulgar toda a minha produção poética, sem prejuízo de continuar a ser postada também no Portal de Poesia Rodolfo Pamplona Filho (www.rodolfopamplonafilho.blogspot.com).
A diferença é que, lá, são publicados também textos alheios, em uma interação e comunhão poética, enquanto, aqui, serão divulgados somente textos poéticos (em prosa ou verso) de minha autoria, facilitando o conhecimento da minha reflexão...
Espero que gostem da iniciativa...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Sonho Lúcido

 



Hoje, tive uma idéia de pura magia

para construir uma poesia.

Dei um salto no escuro.

Tive um sonho lúcido, no duro!


Eu estava acordado

e sonhando, como quem tudo sente...

Eu me vi inebriado,

mas, ao mesmo tempo, consciente.


Pensei em versos colocar

toda essa (con)fusão

de viver o sonho no ar

e sonhar o real na sensação.


Bateu um desespero,

por não me sentir inteiro

para saber direito o que vi,

nem o que realmente senti...


mas é uma sensação única,

como o momento de concepção,

desfazendo-se da túnica

no ato de criação...


Praia do Forte, 08 de março de 2011.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Esperança

 




O futuro há de ser melhor do que o presente

e infinitamente superior ao passado recente,

pois guarda em sim um querer

que se renova a cada alvorecer


Não é o amor que difere o homem dos outros animais...

Não é a falta de guerra que garante a paz...

Não é a pesquisa lógica que impulsiona à solução...

Não é o remédio que traz calma ao coração...


É a força que move o doente à cura...

É o que faz a alma se manter pura...

É o que se sente no sorriso da criança...

É a mais clara forma de fé: a esperança!


Viver é o exercício da persistência

em um mundo que mina sua resistência

com armadilhas dolorosas nos pontos mais sensíveis,

criando obstáculos cada dia mais terríveis...


Mas nada disso realmente importa

quando a sensação que bate à nossa porta

é uma confiança inexplicável no amanhã

com um renascer da vontade a cada manhã...


Salvador, 23 de maio de 2010

Para Micael...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Rima Rica

 




Nada é tão belo que se retrate

melhor do que a tessitura de seus seios:

maciez e firmeza de alto quilate,

poucos sabem seus segredos mas... eu sei-os!


O fogo do desejo nasceu ao vê-la,

brilhando como tocha a iluminar o caminho

de quem procura o norte em uma estrela

na esperança imortal de não permanecer sozinho.


Quem se encantou com seus cabelos disserta

sobre a sensação de ir ao céu em um instante;

quem já chorou por você diz: certa

mulher nasceu para viver distante...


Dos seus lábios, quero, ao menos, um selo

que, na falta de mais, já me aquece...

Olhar para seu corpo e não tê-lo

é decretar o fim da nossa espécie.


Somente aquele que, no paraíso, habita

pode compreender o que se passa aqui:

a concupiscência quase infinita

pela oportunidade de você me ouvir...


Vestirei a minha roupa de gala,

se isso puder deixá-la feliz.

Meu nirvana é abraçá-la

E retirar finalmente esta cicatriz


de uma saudade que me martiriza

como um cigarro que me mata enquanto trago...

como um exército que invade a divisa...

como quem percebe o tamanho do estrago...


Chega uma hora em que se quer vergonha na cara

para ter coragem de ter a cabeça ereta

e saber que todo grito, um dia, cala

e todo alvo, algum momento, alguém acerta!


De quem eu seria, se seu não fosse?

A quem dedicaria este sangue espesso

que flui intenso, vermelho e doce

da ferida aberta que agradeço?


Toda tristeza, a vitória espalma

e da lamentação, eu mesmo declino,

ao conseguir preencher a minha alma

com seu amor, que é o mesmo destino.


No vôo para João Pessoa/PB, 18 de julho de 2010.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O Remédio Amargo

 




Pode chegar um momento em suas vidas

Em que a Paixão se torna amizade,

para depois virar educação;

em que Tom Jobim e Vinícius de Moraes viram Kid Abelha,

em que o “Eu sei que vou te amar”

vira “o nosso amor se transformou em bom dia”;

em que a sua identidade de amante

é convertida em ser pai ou mãe de alguém...


Pode chegar um momento em suas vidas

em que o sexo se torna burocrático,

como um ponto a ser batido

ou um dever a ser agendado;

em que qualquer coisa é motivo para dizer não,

como se precisasse de algo para dizer não...

ou quando o “não quero”, “não pode”, “não faço”, “não vou”

se tornam mais comuns do que o “eu te amo”...


Pode chegar um momento em suas vidas,

em que não há mais gota d’água a esperar,

pois o cálice já transbordou há muito;

em que o silêncio é menos constrangedor

do que ouvir a voz do ente antes amado,

em que a ansiedade de conhecer o outro

é substituída pelo marasmo absurdo

da convivência com falta de assunto...


Pode chegar um momento em suas vidas

em que o resgate dos sentimentos de outrora

é visto como uma chatice ou perda de tempo;

em que as lembranças de momentos felizes

são vistas como um “mico” de um passado distante

em que a tentativa de diálogo é interrompida

por um bocejo ou por um olhar no infinito;

em que se percebe que o desrespeito tem perdão,

mas a monotonia não tem solução...


Pode chegar um momento em suas vidas,

em que se discute compatibilização de horários,

como se o que se tornou um já tivesse desvirado;

em que o trabalho dá prazer e o prazer dá trabalho,

onde o stress é preferível à companhia do outro;

em que vale pena se submeter voluntariamente

a um instrumento de tortura medieval,

em que passar a vida esperando a morte não soa assim tão mal...


Pode chegar um momento em suas vidas,

em que a promessa não consegue mais prevalecer;

em que a experiência derrota a esperança;

em que não faz mais sentido permanecer...

em que não há mais nada a fazer,

senão tomar o remédio amargo,

na agonia que o veneno feche e cicatrize a ferida,

em vez de provavelmente matar o paciente.


Rio de Janeiro, 24 de abril de 2010

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

O Fim do Amor

 




Qual é o fim do amor?

O que move alguém a achar

que não pode viver sem amar?


Qual é o fim do amor?

Por que algo tão maravilhoso

pode ser tão doloroso?


O que alimenta o amor?

As promessas? A parceria?

Os sonhos? Ou a hipocrisia?


O que alimenta o amor?

O respeito? A tolerância?

Os filhos? A esperança?


O que mantém vivo o amor?

O desejo? A vontade?

O medo? A necessidade?


O que mantém vivo o amor?

A fidelidade? O carinho dado?

A cumplicidade? Ou o papel assinado?


Qual é o fim do amor?

O casamento? A monotonia?

O divórcio? Ou a ironia?


Qual é o fim do amor?

Eu não sei...

pois o fim do amor é amar...


Salvador, 12 de abril de 2010

domingo, 5 de fevereiro de 2023

A Banalização da Morte

 



A TV divulga, a rádio anuncia,

o jornal comunica

o saldo das mortes do final de semana...

o trânsito, o acidente doméstico

ou a costumeira e pontual queima de arquivo...


Normal...


Ouvimos impassíveis,

tomando o café nosso de cada dia,

no meio das notícias políticas

ou da alegria ou tristeza com

o resultado do jogo do nosso time...


Normal...


Não há espaço para indignação,

nem mesmo há tempo para isso...

A informação passa por

nossos olhos e ouvidos

como uma brisa imperceptível...


Normal...


O sangue escorre das imagens,

do som e dos papéis...

mas não se sente nada...

Anestesia coletiva, difusa e impessoal...

A apatia e a indiferença

não fazem acepção de pessoas...


Normal...

Normal?


Salvador, 16 de agosto de 2010, uma segunda-feira sangrenta...

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Morrer é Doce!

 






Morrer é Doce!

Rodolfo Pamplona Filho


Quando em meu peito, romper-se a corrente

Que a alma me prende à dor de viver

Não quero por mim, nem uma lágrima,

Nem um suspiro, nem um sofrer...

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu passamento.

Não quero que um sorriso

Se apague pelo fim do meu triste tormento!


Viver foi peregrinar no deserto,

Procurando achar o que não estava escondido,

viver foi submergir no tédio,

Tentando encontrar o que já estava perdido

Quando se esgotar o meu suspiro,

Não desfolhe por mim sequer uma flor!

Não tornai outro ente matéria inútil.

Sozinho, da morte, deixai-me o torpor!


No meu epitáfio, escrevas:

Foi homem e, pela vida, passou

Como nas horas de um pesadelo

Que só, com a bela senhora, acordou


Descansem meu leito solitário

À sombra de um triste cipreste,

Numa floresta há muito esquecida

Onde não usurpem o que ainda me reste.

Este parece ser meu desejo final

Neste esperado momento de verdade nua.

Eis-me pronto para beijar a bela senhora

E ver como a morte é doce e crua!

(1989)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O Absurdo Nosso de Cada Dia

 




A cada dia que passe,

entendo menos o meio que vivo,

em que se precisa explicitar o óbvio,

como se fosse vital advertir do evidente.


Vejo placas que não compreendo:

Proibido pegar carona em ônibus...

Fale com o motorista só o necessário...

Não jogue lixo nas ruas...

Dê descarga após usar o sanitário...


Vejo expressões que não entendo:

Hora extra habitual...

Opção obrigatória...

Demais como coisa boa...

Monstro como alguém do bem...


Vejo tratamentos que não entendo:

Tio sem parentesco...

Mestre sem Mestrado...

Doutor sem Doutorado...

na verdade, sem um curso sequer...


Pedir desculpas por qualquer coisa...

Ultrapassar o velho sinal vermelho de Caetano...

Insistir quando já se repetiu o não...

É difícil pensar em alemão,

pois não há limites para a idiotice coletiva

que não cansa de manter viva

a esperança de, um dia, surpreender...


Salvador, 08 de setembro de 2010, pensando em alemão...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Gratidão

 




Gratidão não se exige,

não se pede, nem se espera...

É presente de um coração puro,

que não vê outra forma de agir,

na memória da marca do passado

e do alívio do auxílio no desespero...


Por isso, a ingratidão machuca

como punhaladas nas costas,

como um tapa no rosto,

como uma dor fatal no peito...


O ingrato merece mais do que repúdio:

é pena de morte no coração,

que se fecha em uma ferida purulenta,

cujos bálsamos somente são

o ostracismo ou a ressurreição do perdão...


Reconhecer-se grato é o exercício da verdadeira humildade,

que é saber que, sozinho, não se consegue nada,

pois conquistas isoladas são vitórias de Pirro,

em que obter o resultado não significa necessariamente desfrutá-lo...


Gratidão é a resposta sincera

que o afeto exige por coerência!

É a marca que renova a esperança,

que não é a última que morre, posto imortal,

mas, sim, a certeza de que

ainda se pode ter fé na humanidade


Maceió, 03 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Meretrizes da Zona Sul (extended version)

 




São como rosas,

cheias de espinhos;

são como pedras,

mudando caminhos;

anjos das alcovas, com lábios de mel...

vidas amargas, no mais puro fel...

Ela são

Rainhas da Noite, de uma “Noite de Blues”!

Pobres mulheres!

Meretrizes da Zona Sul


Corpos maculados,

com almas tão puras

Feras escondidas

em doces criaturas.

Preferem a dor do que a solidão,

vendendo a si próprias, em busca do pão.

Ela são

Rainhas da Noite, de uma “Noite de Blues”!

Pobres mulheres!

Meretrizes da Zona Sul


Deusas pagãs

Senhoras da Vida

Fêmeas amadas

Temidas, feridas

São bichos selvagens em jaula de pedra

Crianças perdidas no meio da selva

Ela são

Rainhas da Noite, de uma “Noite de Blues”!

Pobres mulheres!

Meretrizes da Zona Sul


“É melhor ser meretriz do que ser ladrão” (será mesmo?)

“Vendo meu corpo, mas não vendo minha alma!” (será mesmo?)


Letra e Música: Rodolfo Pamplona Filho

(2004)